Como assim?! Não posso permitir que você saia da minha rotina dessa forma! Volte logo, pois sem sua presença muita coisa perde a graça. Eu sei que hoje não foi um dia muito fácil, na verdade, não tem sido fácil. Eu entendo os mínimos detalhes, até aquilo que não foi dito...mas eu percebo. Eu sei. Pense que um dia um cavalo branco pode relinchar na sua porta, ou um olhar menos comum pode atravessar ao seu. Pense que alguma vez Julho poderá ser mais florido, que os cabelos poderão ser mais lisos e o tanque fique sempre cheio. Pense que um dia o cinto de segurança não mais amassará o vestido, que a bochechas serão rosadas in natura, e que sua vida terá uma trilha sonora menos coletiva, ou até em edição limitada. Pense que as tequilas poderão ser mais destrutivas, que as cerejas brotarão no cantinho da sala, que as dúvidas serão menos traiçoeiras e que a Paraíba torna-se-á uma ilha, com visitas e saídas controladas. Pense que o mundo parará de girar, que as ovelhas Irão miar, e que tudo que parecia engraçado, torna-se-á verdadeiramente engraçado. Pense que sua intimidade com Murphy será reduzida ao “conheço de vista”, que todas as sandálias altas serão lindas e indolores, que o pôr-do-sol no MAM será em slow motion, que as tortas serão sempre doces, que a girafa não será mais amarela, mas que o endereço continuará o mesmo.
Pense que tudo será tão fácil, quanto esse novo parágrafo. Pense que os pontos existem para continuar ou para finalizar. Pense que as coisas serão, no mínimo, mais divertidas quando as vitrines forem desfeitas, as mãos largadas, os casamentos desfeitos e tudo voltará a rotina. Nesse momento, espero que volte à minha.
Logo quando chegamos em Lisboa – já faz quatro meses! – foi difícil conseguirmos um apartamento mobiliado, habitável e com um índice alto de qualidade do ar. Todos eram acabados, com duas camas podres e três quilos de poeira por cm². Já viemos do Brasil com um “prometido”, já que um conhecido de uma amiga de minha mãe possui uma imobiliária...enfim, já estávamos exaustos de tanto procurar e acabamos ficando com o “prometido” mesmo.
Esse “prometido” estava limpo, mobiliado, lindo e com o quarto das meninas e o quarto do menino já definidos – com colchas em cores que designavam o gênero estereotipado...mas tudo bem. Era a casa dos sonhos de todo intercambista, superava todas as expectativas, com a cozinha totalmente equipada, com todos os eletrodomésticos, em um prédio muito legal e em uma parte bem privilegiada da cidade. Enfim, a casa dos sonhos...
Não estava barato, mas diante de tudo que já tínhamos visto, era inevitável não assinar o contrato de aluguel. Assinamos. Logo no primeiro contato, eu já suspeitava dessa perfeição toda e repetia, sem meias palavras, sempre que olhava para os detalhes preciosos, que foram colocados para nos encantar obviamente: Essa porra é que nem a casa de “Um dia a casa cai”! Esse é um filme dos anos 80, com Tom Hanks e Shelley Long, onde eles encontravam a casa dos sonhos, perfeita, com um bom preço, mas que foi se desfazendo durante as primeiras semanas. Aqui, no nosso caso lusitano, qualquer semelhança é mera coincidência.
No decorrer das primeiras semanas, nada fugiu do seu lugar de origem, tudo corria na mais perfeita sintonia, alegria, respeito e funcionalidade. Até que um dia, a persiana externa, que barra o vento e o frio, subiu e não quis mais descer. O quarto das meninas ficou desprotegido do frio europeu, e era uma varanda...pensem no frio. Outro dia, a torneira do segundo banheiro (é um duplex...quase o filme mesmo!!!) não quis fechar. Fiquei desesperado, com a pia quase transbordando, a torneira totalmente frouxa, e minha imaginação fértil já desenrolando uma enchente dentro de casa. Depois de séculos, desesperos, tufos de cabelo caindo pelo chão de nervoso e afins, a torneira fechou. Outro dia, ao sair do primeiro banheiro, a maçaneta ficou na minha mão, e eu quase fiquei preso no interior da casa de banho.
Pense. Pausa para o Nescau.
Eu comecei a rir, pois nunca uma maçaneta tinha se desfeito daquela forma. Em outro momento, a banheira quase inundou a casa, pois o ralo não permitia escorrer nem mais um ml de água. Outro dia, outro mesmo, a escada quase se desmontou, e eu fui junto. Um hematoma se formou no meu pé, que até hoje me permite lembrar do episódio. Essa escada está se soltando da parede em progressão geométrica de tempo. Um dia ela cai. Literalmente.
Outro dia, ficamos sem energia elétrica, pois a máquina de lavar não pode funcionar ao mesmo tempo em que o forno. Outro dia, ficamos presos do lado de fora, pois a porta externa não queria obedecer a chave. Outro dia, o portão do prédio não queria obedecer a chave. Outro dia, mais uma vez o chavão, percebemos que existe uma comunidade de pombo instalada dentro do nosso exaustor...bem em cima do fogão. Ontem, por fim, percebemos que uma outra comunidade alternativa de pombos, instalou-se na nossa varanda ( a sem persiana externa), o que impossibilita o sono matutino, devido ao som insuportável que eles emitem.
Pausa: ODEIO pombo.
Enfim, e ontem também percebemos que uma linda e jovial pomba (se me permite o esquecimento do substantivo epiceno... pois já não me lembro se é pombo-macho e pombo-fêmea que se designa) decidiu criar sua família em um dos cantos da nossa imensa varanda de dois metros quadrados. Ela, com seu ar blasé, fica o dia inteiro chocando seus ovos, cantando e conversando com seus amigos da sociedade alternativa.
Pausa: ODEIO pombo-fêmea\pomba chocando ovo.
Enfim, essa diaba branca está lá, roçando-se no nosso varal (sim, nosso varal fica na varanda!), nas roupas (menos nas minhas, que já as tirei pra não ter contato com essas aves escandalosas) e andando.
Um dia, com certeza, vamos chegar em casa, e os pombos, das duas comunidades alternativas que vivem na varanda e no exaustor, vão ter dominado tudo. Metade acessando a internet, metade vendo People+arts na TV, e a outra rapariga na varanda, chocando seus filhotes, com seu olhar metido-europeu-sou-melhor-que-você.
A minha disposição para trabalhar aqui até que é grande, mas eu não tenho muita paciência para call center. Eu só consegui esse tipo de trabalho part-time, e na empresa que eu estou é outbound, ou seja, eu que ligo para as casas das pessoas... seria tão melhor se fosse o contrário! Enfim, todo dia o mesmo questionário! Eu ligo, apresento-me, leio o texto pronto (com meu ar tragicômico peculiar, tentando convencer que aquele texto enorme é parte da minha eloqüência e fluência) e tento convencer a criatura lusitana a responder a um inquérito INSUPORTÁVEL sobre os hábitos de utilização de aparelhos elétricos. Meu Deus, nem eu agüento ficar perguntando tanta coisa desnecessária (para mim, claro.. pois deve ser bastante necessário para o estudo) e tendo que ouvir várias idiotices, burrices, chatices, truculências etc. Afe. Pena não poder dar na cara de alguns. Enfim (segundo enfim), em mais um dia de trabalho, fui à minha pausa (enormes 15 minutos!!) tomar meu chocolate quente (pra acalmar as pregas vocais!), eu me sentei e fiquei lendo as revistas de fofocas daqui. A primeira do monte era a CARAS...é verdade, aqui também tem caras aparecendo na CARAS. Em vez do resort de CARAS em Búzios, aqui é no Alentejo! Enfim (terceiro...), estava lendo euforicamente, lendo altas notícias, inclusive a morte de um jovem ator português (ó!), lendo sobre economia e metereologia (claro, que já não era mais CARAS), horóscopo e tudo que me aparecia pela frente. De repente, fui comentar com uma criatura que estava do meu lado: Olha, vai chover esse fim-de-semana, e num-sei-o-quê. Altos comentários, e a criatura desolada, dizendo que tinha programado ir à praia no fim-de-semana, e que teria de cancelar o programinha(os europeus acreditam FIELMENTE nos serviços de metereologia... é, vou prestar mais atenção nessa parte do Jornal Nacional quando voltar!). A criatura já estava mandando uma msg para alguém desmarcando, quando eu vi que a revista era de 2006. Parei e pensei! 2006! Eu sei que estamos em 2008, mas fiz minha feição de paisagem bucólica, arrasado pelo fim-de-semana perdido da criatura, e sustentei a tempestade que estaria a inundar Lisboa. Fiquei verde, amarelo, roxo...enfim (quarto do texto!), mas fiquei com muita vergonha de falar com ar de serenidade: Oh, ninha, essas chuvas já vieram em 2006, eu que não me atentei para a data da revista! Não ia dizer isso, ela já tinha enviado a porra do sms para o celular de algum fulano. Ela saiu com cara de hemorróida (bom, nunca vi uma, mas posso imaginar...) e eu fiquei com minha cara de paisagem de outono europeu. Enfim (vigésimo...não consigo evitar!), peguei todas as revistas que tinha perdido meu tempo e TODAS eram de 2006, fora uma que era de 2004! Odeio mais ainda essa empresa, como colocam revistas do período cretáceo para distrair seus funcionários¿ O jovem-ator-lusitano-falecido já deve estar reencarnado, já que ele se foi em 2006, e eu crente e abafando que eram notícias fresquíssimas. Podre...
Esses dias eu estou bastante saudoso. Em alguns momentos eu fico com saudades da minha família, dos amigos, da minha casa, até da minha cama toda torta. Estou tendo diversos “deja vú”, estou cada vez com menos raciocínio linear, perco-me em pensamentos diversas vezes, sonho acordado, enlouqueço por alguns segundos e já chorei até gritar duas vezes. Adorei, por sinal, poder perceber que tenho uma veia tragicômica latente. Algumas pessoas me perguntaram o porquê dos meus textos sem parágrafos, dos eternos pontos de continuação, do fluxo louco de pensamento etc., mas não tem muito segredo: escrevo do mesmo jeito que penso. Escolha certa, eu acho, porque só assim posso pôr verdade e vontade. Se escrevesse com todo rigor formal, com pontos, parágrafos corretos e até com métrica, não seria a tradução perfeita do meu momento. Essas frases unidas, contínuas e sem pausa, são só a expressão do meu fluxo de pensamento, só isso. Enfim, a subjetividade também faz parte desse ser. Enfim, de novo, os parênteses também fazem parte. Enfim, enfim, eu estava falando que estava saudoso. Verdade, eu já esqueci. Passou o saudosismo. Acho que estou perdendo alguns pilares racionais, já que minhas vontades se sobrepõem ao ponto de nunca acabar o que eu começo. Bom, isso já era uma característica minha. Post terapia, já que em Euro, minha gente, não dá pra pagar nemuma sessão! Estou louco pra voltar a andar de cipó no Brasil, ver os leões andarem pelas avenidas e falar meu dialeto tupiniquim-nagô-baiano. Ops, saudosismo!
Quando me falavam que o virginiano (eu, claro!) é detalhista, meticuloso e perfeccionista eu torcia meu nariz seco-quase-europeu-brasileiro. Na verdade, eu nunca consegui me enxergar com essas características, mas eu as tenho! Percebi da maneira mais árdua possível: fazendo faxina! Fato doloroso, mas inconstestável. Parece que aparece um bicho, corroendo todo meu tecido muscular, quando minha preguiça tenta distrair os afazeres domésticos e a higiene completa da casa. Quando minha face preguiçosa tenta passar apenas uma água e uma vassoura “de leve” nos cômodos, meu perfeccionismo dilata minhas veias e não fico quieto enquanto não tiro a nódua mais terrível do rejunte dos azulejos do banheiro. Isso me incomoda demais, pois fico em um estado neurótico impressionante, com o globo ocular pulsando, com as mãos trêmulas e o diabo a quatro. Entretanto, depois da tarefa cumprida, nos moldes mais perfeitos ao meu ver, surge um estado ÍNCRIVEL de satisfação, que facilmente substitui chocolates etc. Ok, não substitui...sou exagerado também, devem ser coisas do signo!
Recebo e-mails: Curta tudo isso que você está vivendo!
Telefonemas: Curta muito toda essa nova experiência.
Caralho!
Eu não agüento mais ouvir e ler frases que entoam o quanto eu devo curtir esse intercâmbio. Até parece que eu vim pra Marte! Até pouco depois da minha chegada, eu ainda tinha esse clima e essa louca vontade de curtir tudo até o último passo. Doce ilusão. Tudo se torna bastante diferente, quando a vivência e a rotina começam a andar juntas. Eu continuo a viver da mesma forma que vivia no Brasil, com poucos momentos diferentes. As pessoas e os locais que eram diferentes no início, já se tornaram iguais. Ok, eu estou em um outro país, envolto em uma outra cultura, mas já me sinto embebido e já faço parte dessa “nova” cidade. Às vezes, tenho rompantes de raiva, já que não há nada de extraordinário para ser “curtido”. Óbvio que estou vendo muita coisa nova, que verei, sentirei e viajarei muito. Isso é fato inquestionável, e irei “curtir” esses momentos. O que tem mais para curtir¿ As “pequenas” escadarias que subo e desço todo-santo-dia¿ O metrô lotado de todo-santo-dia¿ A espera no ponto de ônibus, todo-santo-dia¿ Está bom, vou curtir o caralho a quatro! As pessoas, que nunca vivenciaram isso, ficam encantadas com o “morar fora”, “morar só”, “viajar e estudar fora”, o diabo que seja “fora”, mas as coisas se tornam comuns, tão iguais e rotineiras quanto eram no país de origem. Fato. Eu já quis mandar centenas de cidadãos tomarem naquele lugar, simplesmente por soletrarem: Curta muito! Eu fico tenso com isso, um tanto mal humorado, mas faz parte. Virou rotina também! Eu sei da oportunidade, eu sei aproveitar cada momento, por menos simpático que seja, mas não me peçam para eu “curtir”. Na minha maneira, eu vou saber filtrar tudo o que for importante, vou “curtir” tudo que for conveniente e saboroso, sem ter essa exigência geral da curtição. Agora, por exemplo, estou curtinho a poltrona deliciosa da sala do meu apartamento. Alguns vão torcer o nariz e falar: Vá curtiiir a Europa! Caralho, tudo vai ficar no mesmo lugar, esperando-me ou não, mas vai ficar.Tudo ao seu tempo.
Aline vai estar no trabalho, num calor da porra, com umas pessoas chatas me mandando fazer umas coisas nem tão chatas assim.
Neto vai estar na Europa, tomando um cafezinho europeu, sentado à Carrie Broadshaw em Paris, comendo vários pães europeus e cagando num banheiro europeu.
Dia 2:
Aline vai estar no trabalho, num calor da porra. Sai na rua e se depara com um carro de som tocando pagode. Entra em desespero e sai correndo pela ladeira da praça, toma uma queda e sai rolando e bate num fusca, que explode.
Neto vai estar na Europa, num clima ameno sensacional, tomando um martini chique europeu, num prediozinho europeu, numa manhã indo pra uma faculdade européia.
Dia 3:
Aline está num hospital, com um churrasqueiro com o fundo de carro aberto tocando pagode próximo à janela do seu quarto.
Neto vai estar na Europa, num clima ameno sensacional, andando por diversas ruas da Alemanha, Suíça, França, Portugal...tomando uma bebidinha para diminuir o friozinho chique europeu.
Eu ri MUITO com a rotina bezziana, que Aline me escreveu. Tuxa, fique tranqüila que não é assim, não! Em vez de pagode, aqui tem Zouk, tem um frio de lascar a pele e um calor de matar velhinhos! Salvador, pelo menos, tem um clima linear, aqui tem muita instabilidade de temperatura...o que é péssimooo (pense na minha cara de cú agora!). Como meus amigos me fazem falta! Tuuuxa, eu volto logo, para voltarmos a comer tortas MARAVILHOSAS na doces sonhos!
Estou encantado pela culinária. Antes, eu só sabia fritar ovo e fazer hipersanduíches com pão, manteiga e queijo. Estou evoluindo! Antes de viajar, presentearam-me um livro com várias receitas, bem explicadinho, realmente para quem nunca teve intimidade com a cozinha. Livro em mãos, criatividade pirada na perereca, euros para comprar ingredientes, e o estômago roncando que nem um condenado! Pontos perfeitos para a execução de pratos artísticos, sofisticados e rápidos obviamente! Meu primeiro experimento, fora os 50 macarrões prontos que eu comprei, foi um estrogonofe! Todo orgulhoso, com pouca fome pra não desandar a vontade de fazer algo mais elaborado, separei tudo que ia precisar e comecei a cozinhar. Antes, fiquei quase um dia tratando a porra de um pseudofilé de frango, cortando todos os temperos e tentando diferenciar alguns dos ingredientes descritos na receita. Obstáculos vencidos, fiz um estrogonofe de frango maravilhoso! Super condimentado, como eu gosto. Era uma massa estranha, verdade, mas o que vale é o sabor! Ohhh! Ao final, estava quase a desmaiar de fome, mesmo tendo interagido fortemente com os ingredientes – até a farinha de trigo, pura, eu comi! – e todos os dias que chegava morrendo de fome, o estrogonofe foi o salvador da minha mucosa estomacal. Juro, que por algumas vezes, penso que o meu estômago fala comigo. No frio dá muita fome realmente. Enfim, ontem fiz uma macarronada muito gostosa também, um tanto grudada, mas deliciosa, meu estômago que o diga! Óbvio, que gritava por socorro sempre: Joiceee, agora coloca o molho de tomate¿ Uma loucura. Inventei, para amanhã, fazer pimentões à milanesa, com recheio de atum, delícias do mar e o que existir dentro da geladeira. Uma gororoba deliciosa, sem sombra de dúvidas!
Dúvida do tempero verde: qual a diferença entre salsa e coentro¿ Não consigo dormir por conta disso.
Eu ainda não entrei no espírito europeu. Mesmo. Uma coisa que notei logo de início aqui em Lisboa: os mp3! As pessoas andam, correm, saem na rua pra comprar pão com os seus fones de ouvido aterrados nos tímpanos. Adorei! Impressionante, o fato de que as pessoas se isolam cada vez mais com isso. Adorei! Brincadeiras à parte, das crianças, vulgo pombos, até as senhoras platinadas, passando pelos maltrapilhos dos ônibus. Todos! Nas maiores alturas, claro! Não fico espantado se eu encontrar um pombo com o mp3 grudado na cabeça. Odeio pombo! Após o espanto inicial, veio o pior de todos: a música. O estilo musical ouvido é bastante irritante. Não pela sonoridade, mas pela discrepância de origens. Vou expor: qual o ritmo típico do Brasil¿ Bom, até um mudo gritaria: Samba. Não é¿! Pois bem, aqui acham que é o Zook, ou qualquer união silábica parecida, o ritmo genuinamente brasileiro. Gente! Nove, entre cada dez mp3 aterrados nos ouvidos lusitanos, tocam o Zook brasileiro. Juro, de pé junto, que sou brasileiro e nunca ouvi falar desse ritmo. Para mim era angolano, ou algo assim. De qualquer forma, eles ouvem muito essa mistura de lambada com música brega. E acham que vem...do Brasil! Eu só percebi isso quando vi um dos álbuns mais vendidos aqui em Portugal, uma coletânia: Zook Brasil. Pense na minha cara de satisfação! Já não basta andar de cipó, minha gente! O pior é que na capa tem uma quase passista de escola de samba, sem a fantasia óbvio, mostrando o seu esmalte dentário intacto. Para piorar minha angústia diplomática: a música número um desse álbum de sucessos é “Morango do Nordeste”. Ops, essa é brasileira, mesmo. Fez um sucesso considerável, mas foi no período cretáceo! Enfim, é um senhor desnutrido, alto, bem alto, bastante alto, com um topete estático por forças da genética, quase moribundo, com um medalhão à cantor de pagode pendurado no pescoço. O medalhão é mais pesado que ele, deve doer muito a coluna! Enfim, esse é o cara que canta esse sucesso cretáceo que emerge nas terras lusitanas. Para piorar, é meus filhos existe essa possibilidade, ele tem um sotaque incrivelmente angolano! Mas, obviamente, que se entitula brasileiro da gema, da clara, do ovo todo. O clipe então, uma delícia cinematográfica, com cortes e iluminação perfeitas. O modelo-cantor repousando na sua rede mexicana,enquanto canta com sotaque angolano, e lindas mulatas genuinamente brasileiras (claro, produto de qualidade exportado!) fazendo coro e saindo de piscinas de água fria em pleno clima primaveril (saudade de Bebel!) europeu. O bom, ou ruim, é que o teclado continua na música. Ai, é amor, ai ai ai é amor!
Eu ainda não entrei no espírito europeu. Definitivamente. Eu ainda fico impressionado com o clima dentro de um ônibus. Em Salvador era comum acontecer, no mínimo, dois barracos a cada “viagem”. Era comum também as pessoas conversarem animadamente, por vezes gritando, eu admito, mas aqui é o oposto. Nos ônibus – correção: autocarros! – de Lisboa, as pessoas andam, aliás pairam! Cada um com seus óculos escuros, sua face platinada e arrebitada, suas roupas impecáveis e apenas o som dos pombos. É impressionante! Eu fico muito incomodado, porque fui criado debaixo de ruído de motor, motorista conversando com o cobrador, mesmo a quilômetros de distância, criança vomitando, gritos, risos e afins. Aqui só os pombos. Grr. Odeio pombos. Rapidamente entrando nesse mérito, aqui só tem criança e pombo. Impressionante! Outra coisa, as crianças já têm rugas! O frio é uma coisa! Minha mão, em um mês apenas, já aparenta 50 anos. Enfim...Sim, os autocarros! As senhoras são impecáveis, ficam sublimando sentadas nos seus assentos reservados (as pessoas aqui respeitam os assentos reservados a idosos, deficientes etc.), com seus óculos Gucci e seus perfumes exalando. A única coisa que foge do “normal” é quando entra algum maltrapilho fedendo, que mesmo com seus panos carentes de contato com água, estão com seu mp4 (ou mp5, já que toda hora inventam uma coisa nova!) no ouvido sujo, com seus óculos Gucci comprados nas famosas feiras (que eu nunca vi, por sinal!) e seus celulares, ops... telemóveis, de última geração. Ou seja, eu estou em um nível abaixo dos maltrapilhos fedidos, já que não tenho óculos Gucci, nem mp4 enfiado no meu tímpano. Ah, normalmente, os “anormais” dos autocarros são preconceituados como “brasileiros”. É verdade, minha gente tupiniquim-sambista-que-anda-de-cipó! É preconceito em cima de preconceito, estereótipo em cima de estereótipo, e qualquer pessoa que fuja dos padrões lusitanos arcaicos: brasileiro! Cai mais um degrau, sou brasileiro também. Só não fedo, nem tenho mp4 e nem celular de última geração...ainda.